Quinta-feira, Julho 16, 2009

sonho que passa




Quando passas sem passar
Passas por mim no olhar
No olhar que por ti passa
Porque passas sem olhar
Quando passas sem passar
No meu sonho que te enlaça

E te prende no olhar
Que por ti teima chorar
Lágrimas do fim do mar

E um dia que tu passes
E no teu caminho traces
Os passos de quem te olha
Talvez o mar os apague
E o horizonte os trague
Por não serem mais, de agora…

jorge@ntunes

Terça-feira, Julho 14, 2009

ilusões do mesmo fado





Um poeta que passasse
À tua porta e chorasse
Uma canção de amor
Quem sabe o mundo olhasse
E de tristeza cantasse
O seu fado, a sua dor

E se tu, por piedade
Lhe matasses a saudade
De à janela te abeirares
Verias quanta verdade
Traria na alma, e vontade
De trocar contigo olhares

De te sentir e te tomar
Até de rir nesse chorar
De no teu colo entardecer
Se um poeta fosse o mar
À tua porta parar
Fosse a teus pés ele morrer

Quantas, alteradas visões
Quantos sonhos e ilusões
Caberiam num mar de dor
De um poeta, de singelas emoções
Triste, a cantar-te o seu amor

jorge@ntunes

Domingo, Julho 12, 2009

sereia




Sublime encantamento
Que me tráz de ti o vento
Ode que o mar volteia
Em redor de um pensamento
Deste sonho em que te invento
Doce encanto de sereia

E não fosse o mar imenso
E o meu sonho propenso
A sonhar-te minha musa
Não seria tão sedento
Este passar breve do vento
Que me toma, que me usa

Teu nome é só desejo
Mas de te não ter eu vejo
Teu nome escrito na minha pele
E como se fosse num beijo
Que de puro é ensejo
Doce é o mar de cruel

De te não ter e eu só ser
Todo um mar de desalento
Do teu canto me envolver
Sublime encantamento

jorge@ntunes

Terça-feira, Julho 07, 2009

flor




Se colher uma flor em teu nome
E a guardar só para mim
Não te entristeças amor
Deixei-te todo um jardim

jorge@ntunes

Sexta-feira, Julho 03, 2009

aguarelas da alma


aguarela de RENÉ CHAR


O vento trouxe
Doutro sonho, doutra tela
Novo poema
Em tons de uma aguarela

E tinha luz e tinha cor
Tinha a alma de um pintor
Poeta que não escrevia
Mas tinha nas mãos o ardor
No olhar o fado e a dor
E uma saudade que ria

E assim pintou o vento
Que na tela breve passou
Mas seu sonho de aguarela
Em sua alma demorou

Quadro para sempre eterno
Esculpido de tinta e mar
E o que o vento espalhou
Foi o rubor do seu olhar

E nos céus assim nasceu
Entre cada lágrima vertida
Um poema, uma tela
Um arco-íris de vida

Porque sempre que o homem sonha
Nem sempre o mundo avança
A menos que o homem seja
Colorido em tons de criança

Numa tela que o vento trouxe
De um poema de aguarela
Sem poeta, sem pintor
Apenas um sonho à janela…

jorge@ntunes

Quinta-feira, Julho 02, 2009

capricho do vento


DALI


Das coisas que sei e sinto
Sinto que não chegarei
Nunca, a saber se sinto
O que sinto e o que sei

Meus olhos. Que vêem eles?
E minha alma o que vê?
Se meus olhos tantas vezes
De verem, a alma, em nada crê

Da ilusão, qual a razão?
De tudo me ser disforme?
De ter no olhar a sede
De ter na alma a fome

Das coisas que sei e sinto
Mas que sinto e já não sei
Saber se o que sinto
É só vontade de alguém

Respiro, e o ar não me diz
Se me alimenta ou me condena
A esta vida que sei
Mas da qual só sinto pena

De coisas que sinto e sei
De coisas que nem tão pouco penso
Se o meu olhar e a minha alma
São um capricho do vento

jorge@ntunes

Quarta-feira, Julho 01, 2009

velas de vento e de mar


DALI

O mar, extensão das velas, corpo do vento
A balançarem cálidas constantes do tempo
Que cedo as içou

Na hora tardia do momento
A rasgarem-se no silêncio
Que a força do sonho trilhou

Em busca de musas e cantos
De feitiços desejados
A querem por soçobro
Amainarem-se em seus braços

Como em poemas de heróis
Que só não venceram o medo
De encalharem em qualquer terra
Que lhes soubesse a degredo

Mar sem nau e sem destino
De velas hasteadas ao céu
De velas rasgadas do cio

De uma vontade primeira em desatino
Saudade cálida, de adorno, um véu
Gaivota-nuvem, que já partiu

Num voo só, em redor da lua
No esplendor de um novo olhar
Num voo só, de ser só sua
A vela içada que é o mar

Poisar depois de não pisar
Nunca em qualquer lugar
Que não, no vento que passa

Porque seu corpo é o mar
As velas o seu voar
Que o tempo içou, e abraça…

jorge@ntunes